Quando voltar para si também é uma forma de cuidado
Há momentos em que cuidar de todos parece tão urgente que nos esquecemos de perguntar como estamos. Mas ninguém consegue oferecer presença por muito tempo quando já não consegue permanecer consigo.
Há dias em que percebo que passei horas resolvendo coisas, respondendo mensagens, cumprindo compromissos e tentando estar disponível para quem precisa de mim. No fim do dia, quando finalmente o silêncio chega, noto que estive presente em muitos lugares, mas quase não estive dentro de mim.
Talvez essa seja uma das formas mais discretas de cansaço: aquela em que o corpo continua funcionando, a agenda continua sendo cumprida e, por fora, tudo parece estar no lugar. Por dentro, porém, existe uma sensação difícil de explicar. Como se a vida estivesse acontecendo, mas não exatamente comigo.
Também preciso ser verdadeira com este blog. Aqui eu me sinto em casa. Nem sempre vou conseguir escrever; haverá semanas em que as palavras chegarão com facilidade e outras em que o silêncio será tudo o que conseguirei oferecer.
E está tudo bem. Este espaço não precisa ser uma vitrine de uma vida perfeitamente organizada, nem uma obrigação de produzir respostas o tempo todo.
Acima de tudo, quero que este seja um lugar real. Um lugar onde possam estar as minhas vivências, os meus aprendizados, as minhas dúvidas, as minhas alegrias e os dias em que ainda estou tentando compreender o que sinto.
Porque é justamente nessa verdade, sem pressa e sem perfeição, que este blog encontra a sua razão de existir.
Que eu nunca me esqueça de que também moro em mim. E que, mesmo nos dias em que tudo parecer urgente, eu possa encontrar alguns minutos para voltar para casa.
O sentido da vida
Por esses dias, fui questionada sobre qual seria o sentido da vida. Por um instante, apenas parei para pensar. Antes mesmo que eu pudesse elaborar uma resposta, a mesma pessoa me disse:
A frase parecia simples, mas ficou ecoando dentro de mim. Afinal, pensei nas pessoas que não estão, de fato, vivendo apenas sobrevivendo. Pensei nos dias em que levantamos da cama por obrigação, cumprimos tarefas, atravessamos horas difíceis e chegamos à noite sem saber exatamente onde estivemos dentro de nós mesmos.
A pergunta não saiu da minha cabeça. Durante cinco dias, ela caminhou comigo, silenciosa e insistente. Talvez porque estejamos acostumados a procurar respostas para tudo o que questionamos, como se cada inquietação precisasse terminar em uma definição.
Mas algumas perguntas não chegam para ser encerradas. Elas chegam para abrir espaço, para nos deslocar, para nos fazer olhar a vida com mais presença.
Viver com os olhos abertos
Hoje, penso que o sentido da vida pode estar justamente na possibilidade de viver com os olhos abertos.
O sentido da vida é estar vivo para observar o sol refletindo sobre uma planta ao amanhecer. É acordar e ter a oportunidade de contemplar os próprios filhos pela manhã, reconhecendo neles a continuidade do amor, do cuidado e da esperança.
É ter perguntas e buscar respostas, mas também compreender que algumas respostas mudam com o tempo.
É poder dormir convicta de algo e, no dia seguinte, ter a liberdade de mudar completamente de opinião. É aceitar que amadurecer também significa revisar certezas, abandonar versões antigas de nós mesmas e permitir que a vida nos ensine novamente.
As pequenas cenas da vida
O sentido da vida talvez esteja nas pequenas cenas que quase passam despercebidas: uma conversa sincera, uma mesa compartilhada, um abraço demorado, o silêncio que acolhe, a coragem de recomeçar.
Está na chance de errar e, ainda assim, procurar acertar a partir dos próprios erros.
Está na possibilidade de se despedir de ciclos e de pessoas que já não fazem parte do momento e do movimento que estamos vivendo não necessariamente porque deixaram de ser importantes, mas porque nem tudo o que amamos precisa continuar caminhando ao nosso lado.
Deixar de apenas sobreviver
Viver não é ignorar a dor. Também não é estar feliz o tempo inteiro. Viver é sentir, questionar, cair, levantar, mudar de direção e continuar procurando significado mesmo quando o caminho parece confuso.
É deixar de existir apenas no modo de sobrevivência e, pouco a pouco, voltar a habitar a própria vida.
A gratidão de poder se transformar
Sou profundamente grata a Deus pela oportunidade de me transformar todos os dias. Pela graça de aprender, de passar um legado à minha filha, de sentar-me às mesas certas e de reconhecer as mesas das quais preciso me levantar.
Sou grata pelos encontros que me despertam, pelas perguntas que me atravessam e até pelos erros que me ensinam a caminhar com mais consciência.
Talvez o sentido da vida não seja uma resposta única, pronta e definitiva. Talvez seja uma construção diária, feita de presença, amor, fé, escolhas e recomeços.
Talvez viver seja isso: receber cada manhã como uma nova oportunidade de olhar para o mundo, olhar para dentro de si e perguntar, com humildade e coragem, o que a vida ainda deseja transformar em nós.
E, enquanto houver essa possibilidade, haverá sentido.
Ser Luz!
Ser luz. Ter esperança mesmo quando o peso das nossas decisões tenta nos afogar. Os dias foram difíceis, mas ainda consigo encontrar aquela Elza que todas as manhãs precisava levantar para lutar, acreditando que estaria caminhando para viver seus melhores dias.
Existem decisões na vida que são tão difíceis de tomar que doem a alma e transparecem para o físico. Decidir criar uma criança sozinha porque entendo que, por mais que fosse mais fácil ficar com o genitor para criar, seria ainda mais difícil viver uma vida de mentiras e aparência.
Muitas vezes eu questionava a mim mesma: por que não esqueço esses sentimentos e apenas vivo, aceitando essa vida? E todos os dias essas perguntas ecoavam em meus pensamentos.
O encontro diante do espelho
Mas um dia eu fiz algo que julgava por demais. Parei em frente ao espelho, olhei no fundo dos meus olhos e falei:
Por acaso você já esqueceu qual caminho você já andou, Elza?
Sentir pena de você e fazer as pessoas terem esse mesmo sentimento não vai mudar a sua realidade. Você sabe o que fazer. Você já encontrou o que te motiva. Agora apenas continue um dia após o outro.”
Naquele dia, sentei, coloquei a câmera e fiz um vídeo em lágrimas. Prometi a mim mesma que nunca mais teria aqueles sentimentos por mim novamente.
Até hoje eu tenho esse vídeo e sempre que as coisas estão difíceis, eu volto para assistir e lembrar de onde consegui sair.
Um lugar que eu precisava atravessar
Sei que aquele lugar onde eu estava eu precisava estar e viver aquela fase. Mesmo com tantas feridas, medo e tristeza, escolhi fazer o meu e o futuro de uma criança que dependia 100% de mim.
É difícil escrever isso aqui sem lembrar de cada dia que parecia noites escuras, mas Deus, com sua infinita bondade, me deu todos os dias um motivo para viver e me ensinou que meu verdadeiro contentamento estava comigo, no interno.
O silêncio também me ensinou
Com oito meses de gravidez, parei de trabalhar e fiquei em casa. Tive dias de silêncio, conversas e risadas com Deus que nunca poderia reclamar, apenas agradecer por essa oportunidade de me interiorizar.
Hoje consigo falar com autoridade e propriedade sobre força, resiliência e autoconhecimento não de ouvir, mas de viver.
Naquele espelho, encontrei o que Frankl, escritor do livro Em Busca de Sentido, nos ensina: que o sentido não nos é dado, mas construído através das nossas escolhas, da nossa responsabilidade e da nossa capacidade de transformar o sofrimento em propósito.
A METAMORFOSE QUE COMEÇOU EM UMA ESTANTE
Esta semana, quero continuar compartilhando um pouco da minha história com vocês. Mencionei anteriormente que minha vida mudou quando decidi pegar um livro para ler. Consigo lembrar exatamente do dia e da hora; foi algo tão transformador que a lembrança permanece viva e forte em mim. Muitas vezes buscamos inspiração longe, mas eu sempre a tive por perto. Minha mãe foi meu maior exemplo de força, coragem e otimismo. Mesmo nos dias mais sombrios, diante de um diagnóstico frio e obscuro, ela lutou com uma esperança inabalável. Quando penso nela, a lembrança que vem é de alegria. Eu acredito que ela venceu, mesmo que não tenha sido da forma como estamos acostumados a definir um “final feliz”.
Seguindo os Passos de um Gigante
Outra grande inspiração foi meu irmão. Lembro-me de chegar à casa dele e ficar encantada com sua biblioteca. Eu olhava para todos aqueles livros e sentia um orgulho imenso, pensando: “Eu quero ser igual ao meu irmão”. E eu segui, literalmente, os seus passos. Hoje sou contadora e, adivinhem? Ele também é. Quando ouvimos a frase “somos a média das cinco pessoas com quem mais convivemos”, pode acreditar. Eu precisei de apenas duas para buscar a minha melhor versão. Meu irmão é tão guerreiro quanto minha mãe; ainda muito novo, assumiu a responsabilidade de uma família e sempre se portou como um homem honrado em seus papéis de esposo, pai e filho. Ele é um ser humano incrível, de uma resistência, humildade e coração bondoso que me inspiram. Ele foi o responsável, mesmo sem saber, por essa grande metamorfose na minha vida. Hoje, sou realizada por trabalhar ao lado dele.
O Deserto e a Luz
Tudo isso foi apenas o começo. No momento em que decidi qual caminho seguir, tive a sorte de encontrar uma riqueza que considero sagrada: os livros. Naquela época, o livro “O Poder do Agora” foi o meu guia. Minha oração constante era para ter forças, pois eu não precisava ser forte apenas por mim, mas por um “serzinho” que crescia dentro de mim e dependia da minha coragem. Aquele livro me ajudou a viver um dia de cada vez, entendendo que tudo era um processo e que eu precisava extrair uma lição daquele momento. Aos poucos, comecei a enxergar a luz. Meu “deserto” durou nove meses de muito aprendizado. Olhando para trás hoje, eu não mudaria absolutamente nada.
A Vida que escolhemos
Hoje, posso dizer com convicção: nossas decisões nos levam a caminhos bons ou maus. Cada um de nós tem a vida que merece — ou melhor, a vida que escolhe construir através de suas decisões.